(Outro) Feliz Aniversário (2m 1f)


Barcode - Outro Feliz Aniversário


Notas

Acho que escrevi esta peça em 1987, mas pode ter sido no início de 1988, também. Se eu quisesse descobrir, seria fácil, porém, no momento, isto não é tão importante.

Em 1990, quando comecei a reunir meus textos curtos, este texto passou a fazer parte das “Peças Anexas”, embora não seja tão curto quanto deveria.

Quando Rui Eduardo leu este texto em 1988, ele sugeriu que o personagem “moça” fosse substituído por um rapaz, o que achei ótimo. Hoje, porém, depois de ter lido “As ruivas”, encenado pela Patrícia e pela Letícia, ocorre-me que duas mulheres para os personagens também não ficaria ruim, embora a tristeza/solidão do personagem principal tenha mais “cara” de ser uma autodestruição típica de homens, na minha opinião.

14 de junho de 2002
Victor

(Outro) Feliz Aniversário

 

Personagens

Jovem aniversariante solitário
Moça (“ex-namorada”)
Mãe do jovem
Velhinha (mãe imaginária)
Homem (pai da namorada)
Velho (a morte)

 

Observação

A peça foi escrita para três atores somente: um ator, sendo aniversariante, outro para os papéis masculinos e uma atriz para os personagens femininos.

 

Palco

Do lado esquerdo do cenário está uma janela. Há também uma mesa no centro. Em cima desta, duas velas, um prato, talheres e um vaso de flores compõe a decoração. À direita, ao fundo, é possível observar um sofá. À direita, uma porta.

 

Roteiro

Cena 1

Um jovem arruma a mesa para o jantar. Na mesa, há velas e um vaso de flores. A campainha toca. Entra uma moça.

Moça: (beijando o rapaz) Melhorou?
Jovem: Um pouco… ainda me dói a cabeça e sinto um gosto amargo na boca. (sentam no sofá)
Moça: Lembra daquela vez que você fumou? Também ficou assim…
Jovem: (levanta-se nervoso) Está tudo errado. (fica em silêncio um pouco e depois, volta-se para ela) É melhor ir embora agora.
Moça: Por que isso agora? Vim aqui para ver você! Não pode esquecer o passado nem por uns instantes?
Jovem: (senta-se numa cadeira perto da mesa e fica de costas para a moça) Eu te amo. Ainda. (abaixa a cabeça e, depois, continua falando) Ontem tentei cortar os pulsos. (olha para as próprias mãos) Eu estava tão sozinho…
Moça: (levanta e aproxima-se dele. Fala como se não tivesse ouvido as palavras dele) Como está a sua mãe? Não vem ver você? (coloca a mão sobre a testa dele) Deixa eu ver se você está com febre. Puxa, como está quente! Acho melhor ir já para a cama!
Jovem: (levantando-se) Eu me sinto tão só ultimamente… nada dava certo. Bateu um desespero, sabe? Deitei na cama e fiquei rolando de um lado para o outro. Não consegui dormir. Fiquei pensando em nós… aí, tentei me matar. Como eu queria ver a cara de vocês me olhando ali, naquele desespero, morrendo. Imagino vocês dizendo “Coitado, estava tão só! Por que não fizemos algo por ele?”
Moça: (tinha começado a guardar a louça) Tem um chá? É bom pra febre. (o jovem deita no sofá e a moça prepara o chá) Teve uma época que eu pensava que podíamos ter sido amigos. Bobagem minha. Sempre fomos diferentes. Mesmo quando eu gostava de você, eu…
Jovem: (sentando no sofá) Me beija! Um último beijo!
Moça: Viu? Eu não disse? Eu sabia! (abaixa a cabeça. Fica em silêncio. Vai saindo devagar) Meu namorado está me esperando. (sai)

(BLACK-OUT)

Cena 2

O jovem está fora de cena. Um velho aparece segurando um livro.

Velho: (examina uma das velas, abre o livro e anota) Vela. (olha a outra vela e anota) Duas. (realiza a mesma ação com outros objetos) Cadeira. (examina bem cada uma) Duas. Mesa. (vai até o sofá) Sofá. (senta-se como se estivesse experimentando) Macio. (anota, fecha o livro e também os olhos).
Jovem: (entra de repente e senta-se à mesa) Entra! (fala como se tivesse ouvido alguém à porta)
Velho: (levanta e coloca o livro sobre a mesa, na frente do rapaz) Assine. (oferece uma caneta e abre o livro na página certa)
Jovem: (levanta-se da cadeira e deita no sofá)
Velho: (fecha o livro, desapontado. Sai de cena lentamente)

(BLACK-OUT)

Cena 3

Entra, apressadamente, uma senhora cheia de jóias, mãe do rapaz.

Mãe: Meu filho! (senta no sofá, ao lado do rapaz, que agora está deitado) O que aconteceu? Para que fazer isso comigo? Por que me fazer sofrer assim? Não tem pena da sua mãe? Eu sempre cuidei de você e, agora, é assim que você me trata? Quando eu soube, vim correndo. Está precisando de alguma coisa? Fala! Vim até aqui e é assim que você me recebe?
Jovem: (sentando-se) Mãe, eu…
Mãe: (levanta e vai até a mesa) Filho! Quem é que esteve aqui? (senta-se à mesa e, acendendo uma das velas, começa a rezar em voz baixa)
Jovem: (levantando-se rapidamente) Pára com isso! (chega perto da mãe e começa a gritar furiosamente) Pára! Já disse para parar! Pára! Vamos, pára! Pára, por favor! Por favor, mãe! (começa a ficar desesperado, quase chora. Começa a implorar) Pára com isso, mãe! Por favor! Por favor, mãe! Por favor! (se ajoelha, chorando)
Mãe: (pára de rezar, faz o sinal da cruz. Olha para o rapaz) Sai daí, filho. Esse chão frio vai lhe fazer mal. Vai pra caminha agora que, quando a mãe voltar, vai lhe trazer um presente, está bem? (o jovem senta-se no chão. A mãe acende uma segunda vela na mesa e começa a cantar “Parabéns pra você”)
Jovem: (levanta-se ao final da música e apaga uma das velas) Tchau, mãe. (vai até o sofá e deita)
Mãe: (apaga a outra vela, dá uma volta por trás do sofá e pára. Fica olhando para o filho por alguns instantes) Tchau, filho. (sai de cabeça baixa)

(BLACK-OUT)

Cena 4

O jovem e um homem conversam sentados no sofá.

Homem: Pago agora?
Jovem: Não, não precisa. Pague quando quiser.
Homem: (puxando uma caneta e o talão de cheques) É melhor pagar adiantado. (preenche o cheque) Está correto? (mostra o cheque e entrega)
Jovem: Sim, está. Obrigado.
Homem: Então, fica sendo uma aula por semana. Eu vou trazer a Diana, ela está esperando lá em baixo, no carro. (sai)
Jovem: (levanta-se, vai até a mesa e coloca o cheque dentro do livro)
Homem: (entra com a moça da “Cena 1”) Eu volto em uma hora. (aproxima-se da moça, beija-a e sai)
Moça: Oi. (aproxima-se do jovem e encosta numa cadeira)
Jovem: Oi. Deixa eu ver seus livros. (sentam-se. Ele abre e examina cada livro)
Moça: (olha o lugar e levanta-se) Podemos estudar no sofá? Estou cansada… passei o dia todo sentada numa cadeira.
Jovem: Claro! (levanta-se e senta no sofá) Sente!
Moça: (sentando-se) É a partir da lição três…
Jovem: (mostra a página, segurando o livro com uma mão; a outra mão ele coloca sobre a perna dela, mas sem demonstrar qualquer intenção) Essa página?
Moça: (fica sem jeito, sem saber o que fazer)

O homem entra pela porta e surpreende os dois.

Homem: Diana, eu esqueci de… (vê o jovem tirando a mão) Que é..? O que é isso? O que é que está acontecendo?
Jovem: Não, é que…
Homem: Diana, desce já!

A moça sai de cena.

Jovem: Eu não…
Homem: Cale a boca! Sem-vergonha! Filho duma puta! Eu devia dar uma surra em você!
Jovem: (ficando desesperado) Não, eu não tive…
Homem: Eu vou é chamar a polícia! (sai pela porta)
Jovem: (senta-se no sofá e cobre o rosto com as mãos. Levanta-se, abre o livro, rasga o cheque e fecha o livro. Senta-se na cadeira e abaixa a cabeça sobre a mesa) Droga! (luz somente nele. Levanta a cabeça, acende as duas velas e abaixa a cabeça outra vez)

(BLACK-OUT)

Cena 5

Uma velhinha tem um lençol e a camisa de um pijama em suas mãos. Ela está de pé, atrás do jovem – que está no sofá. Fala (ou canta) caminhando ao redor dele.

“Não tema a escuridão
que a escuridão não é nada.
Não tenha medo do nada”

“O que parece tenebroso
Talvez não seja o que aparenta.
O que aparenta tão feio
Talvez não seja o que parece.”

“Não tema a escuridão
Que a escuridão não é nada.
Não tenha medo do nada”

Ela tira a camisa dele e veste-o no pijama. Depois, o pega pela mão e o deita no sofá. Cobre-o com um lençol. Beija-o ternamente, vai até a mesa e apaga uma das velas. Sai. Ele levanta, vai até a mesa, canta “Parabéns pra você” e apaga a outra vela, sobre a mesa. Volta para o sofá.

(BLACK-OUT)

Cena 6

O jovem está sentado no sofá. Sentado na cadeira, lendo o livro, está o velho. O jovem deita e senta, vira de um lado para o outro e respira como se estivesse tendo um pesadelo (ou como se não conseguisse dormir). Por fim, senta-se no sofá.

Jovem: (ele volta-se para o velho) Estou só. Estou muito só.
Velho: Onde estão todos?
Jovem: Foram embora. Há muito tempo que ninguém vem aqui.
Velho: Sua mãe?
Jovem: Não tenho mãe.
Velho: Seus amigos?
Jovem: Foram embora. Foram passear. Estão onde querem… Europa.
Velho: Europa?
Jovem: Gostaria de morrer. (levanta-se e pega uma faca que está em cima da mesa. Teatralmente, finge cortar os pulsos)
Velho: Você tem a mim. Não quer passear comigo?
Jovem: Com você?
Velho: Está fazendo frio. Feche a janela e venha. (abre o livro e faz algumas anotações)
Jovem: Fechar a janela?
Velho: (estende a mão, oferecendo ao jovem uma caneta. O jovem está do outro lado da mesa e o livro está virado para ele.)

A luz diminui e o foco se fecha sobre a caneta. Fica assim algum tempo.

(BLACK-OUT)

Cena 7

A moça entra correndo. O jovem está no sofá.

Jovem: Oi!
Moça: (falando palavras aparentemente sem nexo) Fazendo parte da coisa, temos aqui um grande delírio… pobre, amado pela mãe que tanto quis que fosse ela doce e terna. E assim, abandonado no próprio aniversário, comemora só, delirando artificialmente.
Jovem: (sentado) Não entendi nada! O que é que você faz aqui?
Moça: Vim lhe dizer (dança pelo palco ao redor do sofá) que há sempre alguém que ama você. Não só eu, mas todos que se despedem não sabendo que você vai… não querem sua partida e ficarão sempre juntos a você.
Jovem: Acho que um de nós está delirando…
Moça: Eu amo você! Difícil entender? Vim para o seu aniversário! Não queria ver você sozinho! (aproxima-se da mesa e acende as velas) Te amo desde quando nos conhecemos. Lembra-se daquelas aulas? (vai até ele e o beija na testa) Vem! (empurra ele até a mesa. Cantam “Parabéns pra você” e apagam, cada um, uma vela. Ela sai devagar)
Jovem: Onde vai?
Moça: Embora, que o delírio é pouco. (volta, abraça-o demoradamente e sai)

(BLACK-OUT)

Cena 8

O jovem acende as velas. Os pulsos estão sujos de sangue. Começa a cantar “Parabéns pra você”. O velho entra e senta numa cadeira. O jovem termina de cantar e senta-se na outra cadeira. Está muito contente.

Jovem: Foi o melhor aniversário da minha vida!
Velho: (pega o livro, abre-o, examina-o e fecha-o, satisfeito. Pega a caneta que estava sobre a mesa e guarda. Sorri) É?
Jovem: As pessoas que eu mais amei estiveram aqui comigo.
Velho: É mesmo?
Jovem: Que mais posso desejar?
Velho: Não quer dar uma volta comigo?
Jovem: (levantando-se e deitando no sofá) Não. Está muito frio.
Velho: Feche a janela! Vai ficar doente desse jeito! Quer morrer de pneumonia?

O jovem levanta-se e vai até a janela. Olha para fora. Sente uma leve tontura e quase cai. Recupera-se logo. O velho começa a cantar “Parabéns pra você”, em voz muito baixa. Depois apaga as velas.

Cena 9

Jovem está perto da janela e o velho sentado à mesa.

Jovem: (fechando a janela e olhando para trás) Parece que vai chover esta noite.
Velho: Chove e faz frio nessa época.
Jovem: A chuva é tão gostosa às vezes. (senta numa das cadeiras e pega o livro que estava na mesa) Lembro-me quando eu era pequeno e chovia muito… eu não precisava ir à aula. Como eu gostava! (folheia o livro) Que livro é esse?
Velho: Não sabe? Não desconfia? Nem um pouco?
Jovem: (balançando a cabeça) Não. Quem trouxe?
Velho: Feche os olhos.
Jovem: (põe o livro sobre a mesa e obedece)
Velho: Pense na chuva que cairá nessa noite. Imagine a chuva caindo no telhado (o velho levanta-se e pega o livro, colocando-o sobre o colo do Jovem) Imagine o vento e a chuva lá fora…
Jovem: (ainda de olhos fechados) Sinto frio. Sinto muito frio.
Velho: (abraça o jovem por trás, ternamente) Temos de ir antes que a chuva chegue. (dá um passo em direção à porta. Estende a mão para o jovem)
Jovem: (abre os olhos e sorri)
Velho: Vem…

O jovem levanta-se e dá a mão para o velho, que o conduz pela porta. A luz os acompanha e vai diminuindo, até apagar por completo.


© Victor M. Sant’Anna 1988-2002
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