Eu Nunca Toquei Você (6m 5f)


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Eu Nunca Toquei Você

(OU: O QUE ELAS REALMENTE FAZEM LÁ DENTRO ENQUANTO ESPERAMOS AQUI FORA!)

 

Personagens

Dra. Nádia
Marcos
Dejacir
Mônica
Marlise
Samantha
Jarbas
Dra. Vália
Faxineira
Victor
Professor

 

Cenas

  1. Nádia e Marcos – “Apaixonado pela Psicóloga”
  2. Marcos e Dejacir – “Déjà vu”
  3. Dejacir e Mônica – “O que Elas Fazem Lá Dentro Enquanto Esperamos Aqui Fora?”
  4. Nádia e Mônica – “Conversa Interrompida”
  5. Dejacir e Marlise – “Pare de Mandar Spam pro Meu E-mail”
  6. Dejacir, Samantha e Jarbas – “Paixão Pelo Professor”
  7. Marcos, Jarbas e Samantha – “O Chato”
  8. Nádia, Mônica e Dra. Vália – “O Que Elas Realmente Fazem Lá Dentro Enquanto Esperamos Aqui Fora!”
  9. Crislaine (Faxineira) e Marcos – “Fantasia Sexual”
  10. Victor, Professor, Faxineira, Marcos e Dejacir – “Terapia de Grupo”
  11. Professor e Samantha – “Eu Nunca Toquei Você”

 

Roteiro

Cena 1 – Nádia e Marcos – “Apaixonado pela Psicóloga”

Marcos sai da porta do consultório (que dá para a sala de espera), enquanto conversa com a Dra. Nádia.

Marcos: Tudo bem, doutora, eu sou um viciado em psicólogas. Estou tentando me libertar, mas está difícil.
Dra. Nádia: Por isso precisa vir aqui às quatro, para a sessão do grupo de apoio semanal…
Marcos: Mas eu não quero um grupo de apoio, quero uma psicóloga!
Dra. Nádia: Procurando amor em uma psicóloga? Isso faz parte do processo de transferência.
Marcos: Não, não, não! Não é só curiosidade ou atração. É paixão mesmo!
Dra. Nádia: Isso é muito interessante. Se tivéssemos tempo, eu gostaria de saber como começou…
Marcos: Começou quando encontrei psicólogas muito interessantes! Como você!
Dra. Nádia: Psicólogas interessantes?
Marcos: Olha doutora, eu não queria falar nada, mas eu sou maravilhoso. Podemos ser felizes juntos!
Dra. Nádia: (irônica) Sim, eu sei… já tive um desses casos como o seu. Mas a Vália é melhor para cuidar disso. Aparece no grupo, está bem?
Marcos: Olha, se continuar me ignorando isso vai demorar muito mais do que o tempo que temos, certo?
Dra. Nádia: Não temos tempo nenhum. Desculpe… estou atrasada. Tenho de passar no banco antes de outros compromissos. Se quiser, telefone e marque uma consulta com a Dra. Vália.
Marcos: Só quero esclarecer alguns pontos!
Dra. Nádia: Não há nada para esclarecer.
Marcos: Você não entendeu nada!
Dra. Nádia: (tentando se desvencilhar dele, vai fechando a porta) Desculpe, é que…
Marcos: Eu estou mesmo apaixonado por você! Será que não dá para entender?
Dra. Nádia: (ríspida) Outra dia, está bem?! Nossa hora acabou.

Dra. Nádia fecha a porta e deixa Marcos sozinho na sala de espera.

Cena 2 – Marcos e Dejacir – “Déjà vu”

Marcos está parado na frente da porta, na sala de espera do consultório. Ele encontra Dejacir, que vai entrando – “aparentemente” esperando para ser atendido. Os dois se reconhecem (ou pensam que sim).

Dejacir: Ô, amigão!
Marcos: Ô, amigão!

Ambos vão ao encontro um do outro e se abraçam.

Dejacir: Grande amigo!
Marcos: Grande!
Dejacir: Puxa! Fazia tempo, hein!
Marcos: É mesmo!
Dejacir: Cara, que saudade daqueles tempos!
Marcos: É mesmo! Aqueles tempos!
Dejacir: Desculpe amigão, mas… qual é o seu nome mesmo?
Marcos: Esqueceu meu nome? Como esqueceu meu nome?
Dejacir: Sei lá… deu um branco. Desculpe. Acontece, né?
Marcos: Tudo bem, dessa vez passa! Também esqueci o seu! Que cabeça a nossa, hein?
Dejacir: Puxa! Nem me fala… vivo esquecendo as coisas!
Marcos: Engraçado, comigo também é assim…
Dejacir: Por isso está aqui?
Marcos: (não entende e repete a frase) “Por isso está aqui…”?
Dejacir: Aqui, nesse consultório… falta de memória?
Marcos: Ah, não! Que isso! Não preciso disso não. Também não é tão grave assim! E você?
Dejacir: Também não é grave… quer dizer, talvez seja, sei lá. Mas estou aqui para outra coisa.
Marcos: Negócios?
Dejacir: Que nada… estou aqui só para um encontro.
Marcos: Encontro?
Dejacir: (mudando de assunto) Mas me diga: como estão as coisas?
Marcos: Nem te conto… acabei de levar um fora da psicóloga!
Dejacir: Psicóloga?
Marcos: É… estava tentando com… bom, deixa para lá.
Dejacir: Psicóloga…!
Marcos: Também não é para tanto. Não é nada importante…
Dejacir: Psicóloga! Sei…
Marcos: Engraçado… agora senti uma coisa. Sabe quando a gente tem a impressão que uma coisa já aconteceu?
Dejacir: Claro! Isso acontece com todo mundo! Coisa mais comum!
Marcos: Qual é o nome disso mesmo?
Dejacir: Nome disso o quê?
Marcos: Nome disso… quando a gente acha que uma coisa está acontecendo de novo.
Dejacir: Ah! Sei… é um nome esquisito. Mas não lembro agora.
Marcos: Eu sei o nome… está na ponta da língua! Mas também não estou conseguindo lembrar. Como era mesmo?
Dejacir: Sei… estou lembrando. Parece um nome feio…
Marcos: Como era mesmo? Dagoberto? Denilson? Jurandir?
Dejacir: Engraçado! Que coisa… também tenho a impressão que já tive essa conversa!
Marcos: Não, não teve não!
Dejacir: Tenho quase certeza! Estou até lembrando que você vai se lembrar agora do que você não consegue lembrar!
Marcos: É mesmo? Que coisa!
Dejacir: Deixa eu lembrar o que acontece… ah! Eu começo a soprar as sílabas!
Marcos: Sílabas? Que sílabas?
Dejacir: Sílabas de uma palavra.
Marcos: Claro que é de uma palavra, mas… qual palavra?
Dejacir: De…
Marcos: “De”?
Dejacir: “De”… “Já”…
Marcos: Dejalmir! Claro! Agora lembrei!
Dejacir: “Dejalmir”? Não seja besta! É dejavu…
Marcos: Dejavu? Que nome horrível! Não lembrava que você tivesse um nome tão feio!
Dejacir: Meu nome é Dejacir, poxa! Dejavu é aquilo que você queria lembrar e que não lembrava!
Marcos: “Dejavu”? Que “dejavu”? (de repente lembra) “Dejavi”! Claro! Lembrei! “Dejavi”!
Dejacir: Mas não é “dejavi”! É “dejavu”…
Marcos: “Dejavi”… “Dejavu” é como se escreve. Mas se diz “dejavi”. É francês!
Dejacir: Mas porque os franceses iriam falar errado?
Marcos: Sei lá… é assim e pronto!
Dejacir: Vai ver os franceses são americanos!
Marcos: Americanos? Que bobagem é essa?
Dejacir: Ah, mas não vai dizer que americano fala tudo errado? Quando é para dizer “a” eles dizem “ei”, quando é para dizer “e”, eles dizem “i” e quando é para dizer “i”, dizem “ai”. Imagina só! Que coisa de louco.
Marcos: Ah, que isso… que bobagem. Cada povo fala como quer!
Dejacir: Olha só: dá um soco na minha barriga.
Marcos: Que isso… você é masoquista?
Dejacir: É só um exemplo! Dá um soco aí, vai…
Marcos: Eu não vou dar não, sai para lá!
Dejacir: Então dou eu, toma!
Marcos: Ai!
Dejacir: Viu? Se você fosse americano tinha dito “eu”?
Marcos: Eu?
Dejacir: É. “Ai” é “eu”.
Marcos: Ah, entendi. Mas precisava me bater?
Dejacir: Você mereceu… não estava entendendo nada! Mudando de assunto: eu tenho de esperar a Marlise. Me desculpe, mas será que dá para você ir dar uma volta?
Marcos: Uma volta?
Dejacir: É, desaparecer… escafeder-se, sumir, cair fora.
Marcos: Certo, entendi… a Marlise…?
Dejacir: É uma colega minha que não me dá bola. Eu vou ter uma conversa com ela…
Marcos: Aqui?
Dejacir: É, aqui. Por que? Qual é o problema?
Marcos: Bom, aqui não é o melhor lugar para conversar com alguém que você quer conquistar! Precisa ser um lugar… sei lá, mais romântico. Por isso ela não te dá bola.
Dejacir: E você entende disso por acaso? Acabou de levar um fora da psicóloga!
Marcos: Tá, entendi… vou cair fora. Mas é “dejavi”, hein!

Cena 3 – Dejacir e Mônica – “O Que Elas Fazem Lá Dentro Enquanto Esperamos Aqui Fora?”

Entra Mônica e Marcos sai, olhando para ela com “cara de tarado” enquanto passa.

Mônica: (cumprimenta Dejacir com um leve aceno de cabeça)
Dejacir: (responde ao cumprimento)
Mônica: (pega uma revista de uma pilha)
Dejacir: (levanta um pouco, dá uma volta, pega uma revista e senta)
Mônica: (olha o relógio e continua lendo a revista)
Dejacir: Quente aqui, não é? Esse ar condicionado não está muito bom.
Mônica: (responde por educação) É, tem feito muito calor nesses dias…
Dejacir: (olha Mônica de uma maneira mais insistente) A gente mora num país tropical! Devíamos andar com menos roupa!
Mônica: (tenta ajeitar a roupa, como se estivesse escondendo ou protegendo melhor o corpo)
Dejacir: (olha o relógio) Qual é o horário da sua consulta?
Mônica: (sem tentar ser simpática) Três e meia.
Dejacir: Da tarde? (ri forçadamente da própria piada)
Mônica: (sorri por educação e continua lendo a revista)
Dejacir: (olha o relógio e coloca o relógio de pulso no ouvido) Acho que o meu está adiantado… quase quatro horas.

Alguns segundos passam nessa situação de espera.

Dejacir: Vou até o corredor tomar uma água. Quer que eu traga um copo para você?
Mônica: Não, obrigada.
Dejacir: (fazendo uma piada sem graça) Posso trazer com água dentro!
Mônica: (sorri por educação)

Dejacir levanta, vai até a porta de saída da sala de espera e abre a porta. Ele sai e coloca a cabeça para dentro.

Dejacir: Eu já volto! Não precisa se sentir solitária! (faz um riso forçado) Ha! Ha! Ha!

Dejacir sai da sala. Alguns segundos se passam.

Mônica: (falando sozinha) O problema de trabalhar em consultório de psicólogo é que aparece muito maluco…

Dejacir volta a tempo de ouvir o fim do comentário

Dejacir: Como? Não entendi!
Mônica: Nada não, deixa para lá… estava falando sozinha.
Dejacir: Ah! Costuma falar sozinha? Também ouve vozes?
Mônica: (rindo) Não, não costumo ouvir vozes…
Dejacir: Não precisa ficar envergonhada, isso é bem comum hoje em dia… estresse. Todo mundo escuta vozes!

Mônica ignora o comentário e começa a folhear outra revista.

Dejacir: Essas revistas são muito boas… tem uma aí que fala sobre pessoas que escutam vozes.
Mônica: (um pouco irritada) Não escuto vozes, não se preocupe. Vim aqui para uma entrevista.
Dejacir: Ah, certo… (espera alguns instantes) Eu voltei porque tinha um conhecido meu lá no bebedouro. Eu achei melhor não falar com ele. Ele é muito chato!
Mônica: (fala baixinho) Deve ser contagioso…
Dejacir: Sabe dizer se o certo é “dejavi” ou “dejavu”?
Mônica: (olha rapidamente para Dejacir e responde “não” apenas com a cabeça)

Dejacir pega uma revista para ler, mas não consegue se concentrar e fica conversando quase que sozinho.

Dejacir: O cara é um idiota! Imagine só: estava passando uma cantada na faxineira no meio do corredor! (folheia a revista e olha a capa) “Psicologia Hoje”… engraçado…
Mônica: (finge que está muito concentrada na leitura)
Dejacir: O nome desta revista é “Psicologia Hoje”, mas a revista é de 2004!
Mônica: (sorri educadamente)
Dejacir: Sabe, eu também não estou aqui para uma consulta. Estou esperando uma colega minha… vou pedir ela em namoro.
Mônica: (fala olhando para o outro lado, tentando segurar o riso) Coitada!
Dejacir: (pensando alto) Ela mora “lá onde Judas perdeu as botas”.

Mônica tenta esconder o riso.

Dejacir: (falando sozinho) Por que será que dizem “lá onde Judas perdeu as botas?”

Mônica continua se esforçando para não dar atenção aos comentários de Dejacir.

Dejacir: Judas… botas… não faz muito sentido, né? Cada uma que inventam…
Mônica: (tenta esconder o riso) É.
Dejacir: (consulta o relógio) Sua terapeuta deixou você na mão… está atrasada. Ou meu relógio está muito doido.
Mônica: (fica olhando para Dejacir, com pena, depois consulta o relógio) É mesmo… está atrasada.
Dejacir: Sempre fico imaginando… o que será que os psicólogos fazem lá dentro…
Mônica: (não entende o comentário) Lá dentro?
Dejacir: É! Enquanto as pessoas esperam aqui fora… o que será que eles fazem lá dentro? Será que é “sacanagem”? (fica rindo da própria imaginação) Já imaginou? Pode estar rolando a maior suruba lá dentro… a maior orgia, sei lá…
Mônica: (antipática) Como pode rolar uma “sacanagem” se ficam sozinhas lá dentro?

Dejacir fica pensando e Mônica volta a olhar a revista.

Dejacir: (achando uma resposta) Internet?

Os dois emudecem por alguns segundos. O clima entre eles não é muito amistoso.

Dejacir: Você não é muito de conversar, não é?
Mônica: Só quando estou trabalhando.
Dejacir: E você trabalha com o quê?
Mônica: Sou psicóloga.
Dejacir: (se dando conta da gafe) Acho que vou beber uma água!

Dejacir sai rapidamente para o corredor.

Cena 4 – Nádia e Mônica – “Conversa Interrompida”

Dra. Nádia sai pela porta do consultório, como se estivesse com pressa, e percebe Mônica na sala de espera.

Mônica: (larga a revista) Oi…

Dra. Nádia tranca a porta – com uma chave – da sua sala, que fica no interior da sala de espera do consultório.

Dra. Nádia: (fala enquanto vai fechando a porta) A Dra. Vália acabou de ligar dizendo que vai adiar as consultas de hoje. Você é paciente dela?
Mônica: Eu sou a Mônica…

Dra. Nádia acabou de fechar a porta.

Dra. Nádia: Mônica? Claro! Puxa, a gente conversou tanto por telefone…
Mônica: Devo voltar outro dia?
Dra. Nádia: (examina melhor Mônica, com muito interesse) Para mim está tudo acertado! Podemos dividir o consultório como a gente combinou. Você veio combinar alguma coisa com a Vália?
Mônica: (verifica se ninguém está ouvindo) Aquilo que a gente tinha combinado…
Dra. Nádia: (olhar diferente) Ah, claro… bom, eu tenho de sair, mas volto logo. Eu e a Vália temos uma reunião hoje. Podemos fazer aquilo… mais tarde? Hoje?
Mônica: (se aproxima com sensualidade) Claro, estou desejando isso tanto quanto vocês…

São interrompidas por Dejacir e ficam um pouco sem jeito.

Dejacir: Opa, desculpe, eu…
Dra. Nádia: (tentando se recompor) Queria marcar uma consulta comigo?
Dejacir: Não…
Dra. Nádia: (pensando que Dejacir é paciente da colega de consultório) A Dra. Vália adiou todas as consultas de hoje. Ela não ligou para você?
Dejacir: (não entende muito bem a pergunta) Não, a Dra. Vália, não me ligou…
Mônica: (falando com Dra. Nádia) Olha, eu vou embora, mas volto mais tarde. Está bem?
Dejacir: (falando sozinho) Eu nem sei quem é essa tal Dra. Vália…
Dra. Nádia: (concentrada na conversa com Mônica) Pelas quatro, quatro e meia?
Mônica: Combinado!

Mônica sai.

Dra. Nádia: Eu tenho de fechar o consultório, mas se é importante…
Dejacir: É muito importante
Dra. Nádia: Você vai ficar esperando aqui? A Dra. Vália não demorará mais do que vinte minutos… posso deixar a sala de espera aberta.
Dejacir: Ah, é muito importante mesmo!
Dra. Nádia: Está bem, tenho de ir.

Dra. Nádia sai com pressa.

Cena 5 – Dejacir e Marlise – “Pare de Mandar Spam pro Meu E-mail”

Assim que elas saem, Dejacir tenta entrar na sala da Dra. Vália, que está fechada à chave.

Dejacir: Por que trancam tudo? Será que não confiam nos pacientes?

Dejacir dá uma volta pela sala.

Dejacir: Bom, elas só têm cliente louco. Têm mais é de trancar tudo mesmo…

Dejacir senta e pega uma revista. Marlise entra apressada. Dejacir levanta num pulo.

Dejacir: Marlise! Eu sabia que você viria!
Marlise: Eu não ia vir, mas achei melhor resolver a situação.
Dejacir: Sabe… eu estava pensando enquanto você não chegava. Só você vai entender: acho que resolvi um mistério! Descobri como “Judas perdeu as botas”!
Marlise: Dejacir, ficou maluco, é? E isso é lugar de marcar um encontro?
Dejacir: Espera, deixa eu te contar: a gente sempre diz “onde Judas perdeu as botas” como referência a um lugar muito distante, certo? Daí eu fiquei pensando e pensando… só podem ser as botas de sete léguas! Logo, quem roubou as botas foi o gato de botas! Judas foi roubado, coitadinho!
Marlise: Dejacir, eu não quero mais ouvir suas ideias idiotas! Suas piadas são sem graça e eu não quero mais que meu chefe fique me perguntando sobre a gente! Não aparece mais no meu setor!
Dejacir: Mas Marlise, eu te amo!
Marlise: Você me ama? Está louco? Eu só vim porque não aguento mais essa situação! Quero esclarecer tudo!
Dejacir: Esclarecer tudo?
Marlise: Eu não gosto de você, eu não quero que você me procure e se você continuar, vou denunciar você, entendeu?
Dejacir: Mas o nosso amor é tão lindo! Como pode falar assim do nosso relacionamento?
Marlise: Me escute! Nós não temos um relacionamento! Nunca tivemos! Dar um “oi” para o sujeito da manutenção não é um relacionamento!
Dejacir: Eu não trabalho na manutenção! Eu trabalho na correspondência!
Marlise: Não interessa! E pare de mandar “spam” pro meu e-mail! Não quero receber nada que venha de você, não entende?
Dejacir: (triste) Agora entendi. Não precisa gritar.
Marlise: (um pouco mais calma) Não me leve a mal… eu só quis ser simpática. Nunca gostei de você, foi só um mal-entendido.
Dejacir: (conformado) Certo. Pode deixar, não vou mais incomodar você. Eu prometo. Podemos ser amigos? Vamos lanchar juntos?
Marlise: Desculpe, Dejacir. Eu não quero nenhum mal para você, mas não podemos ser amigos. Eu só vim esclarecer isso. Eu vou embora… saí no meio de um trabalho importante. Tchau.

Marlise sai com pressa.

Dejacir: (responde só depois dela ter saído) Tchau…

Dejacir senta outra vez e pega uma revista. Deita o rosto sobre a revista e começa a chorar. Fica assim alguns segundos. Levanta a cabeça, os olhos ainda estão lacrimejando.

Dejacir: (procurando algo ao redor) Que porcaria de consultório é esse que não tem lenço de papel na sala de espera?

Levanta e tenta abrir a porta do consultório. Por fim, desiste e senta novamente, em algum canto da sala de espera.

Cena 6 – Dejacir, Samantha e Jarbas – “Paixão Pelo Professor”

Entram Samantha e Jarbas juntos no consultório.

Samantha: …e o cara não parava de me encarar!
Jarbas: Um idiota! Bonitinho, mas idiota!
Samantha: E o que foi aquela história de “dejavu”?
Jarbas: E você viu que antes de a gente chegar, ele estava “dando em cima” da faxineira?
Samantha: O sujeito é muito cara-de-pau! Tentou me paquerar na sua frente!
Jarbas: Vai ver ele percebeu que eu… Sabe, né?
Samantha: Não interessa, não é? Mas que falta de respeito! Eu, acompanhada, e ele, “cantando” a faxineira…

Os dois sentam e continuam a conversa.

Samantha: Será que é aqui?
Jarbas: É sim, só não conheço ela… uma tal de Dra. Vália…
Samantha: Nome estranho, não é?
Jarbas: Sabe quem esse cara aí do corredor me lembrou? Aquele nosso colega apaixonado por você que não te deixava em paz, lembra?
Samantha: Nem me fala… que cara mais “sem noção”! E ele ainda não largou do meu pé! Faz dois meses que eu já expliquei que não queria nada com ele e ele ainda insiste! Abri meu e-mail ontem e tinha umas 10 mensagens do cara!

Dejacir, ao ouvir o comentário, olha para os dois. Os dois percebem Dejacir, ainda muito triste e fungando, e ficam conversando sobre ele.

Jarbas: (fala baixinho para Samantha) O que será que aconteceu?
Samantha: Quieto! Não incomoda o coitado!
Dejacir: (ouvindo) Não se preocupem comigo, vou ficar bem… coisas do coração.
Jarbas: Pois é. Acontece…
Samantha: (solidária) O Jarbas toda semana se apaixona por alguém! Garanto que é bobagem… isso passa. Não precisa ficar assim.
Jarbas: (olhando para Samantha) Eu é que me apaixono, é?
Samantha: Veio aqui para uma consulta?
Dejacir: Não, já estou de saída. A Dra. Vália está para chegar, pelo que me disseram. Ouvi vocês falarem o nome dela… mas pelo que eu sei, ela cancelou todas as consultas de hoje.

Dejacir levanta, bastante abalado ainda.

Dejacir: Acho que já vou indo.
Jarbas: Vê se fica bem!

Dejacir levanta e vai na direção da porta. Encontra então Marcos, que vem entrando.

Marcos: Isso já aconteceu hoje! “Dejavi”!
Dejacir: É “dejavu”! Estou indo, tchau!

Dejacir sai.

Cena 7 – Marcos, Jarbas e Samantha – “O Chato”

Samantha: (fala baixinho) Ah, não!
Jarbas: (também fala baixinho) Se ele tentar te passar uma cantada, eu vou embora!
Marcos: Oi, garotinha linda… sentiu saudades de mim?
Samantha: Você não tem vergonha, não?
Marcos: Não fica assim… quando a gente se conhecer melhor, você vai ver que eu sou uma ótima pessoa!
Jarbas: Sei…
Marcos: Principalmente na cama!
Samantha: Ah, que nojo!
Jarbas: A gente vai embora, com licença!

Marcos vai até a porta da sala da Dra. Vália e dá umas batidinhas na porta. Espera a resposta. Jarbas levanta e puxa Samantha, que resiste um pouco.

Samantha: Espere, nós temos hora marcada.
Jarbas: (fala baixo, mas não muito) Eu me recuso a ficar aqui com este imbecil! Além disso, o outro cara disse que a Dra. Vália cancelou as consultas!
Marcos: Não precisa ir embora não, já estou saindo. Só vim ver se a Dra. Vália já chegou. Estou esperando por ela. Sabe como é… se não vai com uma, vai com a outra! (faz um movimento obsceno com a cintura).

Marcos vai até a porta de saída e para, para se dirigir a Samantha.

Marcos: Não sabe o que perdeu, menina!

Marcos vai embora.

Jarbas: Nossa! O que foi isso? Consultório de doido?
Samantha: Eu nem queria vir, mas agora que marquei uma hora vou ficar. Pode ser engano do outro cara…
Jarbas: Ah, o problema das mulheres de hoje: paixão, paixão e paixão! Depois de uma paixão vem outra, Samantha! Deixa de ser uma coitadinha!
Samantha: Você sabe que não é bem assim. Não é uma paixão qualquer… ele foi meu professor. O semestre todo ele ali, pertinho de mim, e agora, não vai ser mais meu professor. Eu só queria um beijo ou um abraço! Nem isso eu consegui… fiquei morrendo de medo. Literalmente travada! No último dia, eu até cheguei perto e disse “Bom, professor, adorei suas aulas. Queria me despedir”…
Jarbas: Eu sei, não precisa me contar. Eu estava lá, lembra? Foi patético! Por que não agarrou ele logo e deu um beijo? O que ele poderia ter feito?
Samantha: Falar é fácil! Mas você também vive apaixonado e faz o quê?
Jarbas: Mas paixão pelo mesmo sexo é bem pior, amiga. Posso garantir para você que não é a mesma coisa. Que homem iria recusar um abraço ou um beijo de você?
Samantha: Ah, mas e a coragem?
Jarbas: Coragem precisa ter para gostar de alguém do mesmo sexo. De outro sexo… qual é o problema? O que podia acontecer?
Samantha: Ele ficar chateado comigo, sei lá. Não sei, não sei. Não rolou nem um aperto de mão…
Jarbas: Pelo menos você aceitou meu conselho e veio até aqui. Você vai ver como é bom… paixão é bobagem, passa logo. Você passou todos esses meses muito para baixo! Precisa tocar a vida para frente! Esquece ele!
Samantha: Eu não consigo esquecê-lo! É horrível mesmo.
Jarbas: É, tudo bem…

Jarbas e Samantha param de conversar por uns minutos.

Jarbas: Que horas são?
Samantha: Quase quatro horas, eu acho.
Jarbas: Eu tenho que ir ao banco! Será que dá tempo?
Samantha: Eu não vou ficar aqui sozinha! E se aquele sujeito nojento voltar e tentar me agarrar?
Jarbas: Vamos, vem comigo, dá tempo. A gente ia ficar esperando um tempão de qualquer jeito. Chegamos muito cedo!
Samantha: Está bem. Sozinha, aqui, eu não fico mesmo…

Os dois saem.

Cena 8 – Nádia, Mônica e Dra. Vália – “O Que Elas Realmente Fazem Lá Dentro Enquanto Esperamos Aqui Fora”

Nota do autor: Esta cena foi originalmente escrita para terminar assim que as psicólogas entram no consultório. Foi criada para ser a última da peça. Se você achar interessante a proposta original, fique à vontade para deslocar a cena para o fim. Caso contrário, a parte de “sons e gemidos” deve permanecer, já que foi acrescentada para dar a ideia de passagem de tempo.

A Dra. Vália chega no consultório, com um molho de chaves na mão. Organiza o consultório, colocando mesa, cadeiras e revistas em forma mais aprumada, antes de abrir a sala do consultório e entrar. Ela está vestida com uma roupa longa, que possa ser tirada facilmente, como por exemplo um “jaleco” de hospital. Assim que ela entra no consultório, fecha a porta de sua sala. Entram, então, Mônica e Dra. Nádia na sala de espera, conversando, como tivessem se encontrado por acaso no corredor.

Dra. Nádia: …Ah! Que saudades da minha turma!
Mônica: Eu fui aluna da Profa. Matilde! Pegou ela como professora?
Dra. Nádia: Ah! Sim, para mim foi minha melhor professora de toda a vida!
Mônica: Pena que não fomos colegas!
Dra. Nádia: Está formada há quanto tempo, mesmo? Não lembro de você por lá…
Mônica: Eu estava trabalhando enquanto terminava a faculdade. Não ficava muito pelos corredores…
Dra. Nádia: (começa a tirar uma peça de roupa) Que pena, podíamos ter sido amiguinhas…

Mônica se aproxima de forma sensual e começa a ajudar a Dra. Nádia a tirar a roupa. Dra. Nádia também começa a tirar a roupa de Mônica.

Mônica: Mas agora podemos compensar o tempo…

As duas continuam tirando a roupa uma da outra. Embora não fiquem nuas, usam roupas muito sensuais ou provocantes por baixo da roupa que já tiraram. Elas começam a se abraçar e a beijar mão, braços e depois o pescoço uma da outra. A porta do consultório se abre de repente.

Dra. Vália: O que é isso? O que vocês estão fazendo aqui na sala de espera?

Dra. Nádia e Mônica param imediatamente o que estão fazendo.

Dra. Vália: Por que começaram sem mim, suas vadias?

Dra. Vália tira sua vestimenta. Ela está vestida com roupas de couro pretas e provocantes, tem um chicote na mão e usa vestimentas típicas de práticas sado-masoquistas.

Dra. Vália: (estalando o chicote) De quatro, já! Beijem minha mão!
Dra. Nádia e Mônica: Sim, Dominatrix!

Dra. Nádia e Mônica se aproximam e ficam de quatro na frente de Dra. Vália, lambendo e beijando sua mão.

Dra. Vália: (ainda estalando o chicote) Aqui não, suas cadelas, lá dentro! Pode chegar algum paciente por engano!

As duas entram para o interior do consultório, Dra. Vália entra depois e tranca a porta.

Nota do autor: se esta for a cena final, a peça acaba aqui. Caso tenha sido colocada no meio da peça, a cena prossegue da seguinte maneira: a luz é diminuída, enquanto luzes vermelhas piscantes começam a girar pelo palco. Ruídos de chicotes e gemidos são escutados, cada vez mais altos e mais rápidos, até terminarem em gemidos que lembrem orgasmos.
Quando isso terminar, imediatamente as três saem lá de dentro, totalmente vestidas, como se nada tivesse acontecido, passam a chave na porta do consultório e saem pela porta. Alguém estica a mão para apagar a luz. A luz é apagada e a porta, fechada.

Cena 9 – Crislaine (Faxineira) e Marcos – “Fantasia Sexual”

Alguns instantes são passados no escuro, em silêncio, até ser ouvido barulho de chave na fechadura. A porta é aberta devagar e uma mão procura o interruptor de luz, acendendo a lâmpada. Entra a faxineira, Crislaine, carregada de apetrechos de limpeza, entre eles uma vassoura, um esfregão e um balde. Fecha a porta da sala de espera.
Crislaine se dirige até a porta da Dra. Vália, larga tudo no chão e dá umas batidas na porta para verificar se não há ninguém lá dentro.

Crislaine: Faxina! Tem alguém aí dentro?

Ela dá novas batidas na porta. Espera alguns instantes. Coloca a chave na fechadura, abre a porta, espia lá dentro e passa alguns dos apetrechos para dentro do consultório (a vassoura, principalmente). Enquanto isso, Marcos abre a porta da sala de espera e entra devagar.

Marcos: Tudo limpo?
Crislaine: Ainda não, acabei de chegar!
Marcos: Não, eu quis dizer: tem alguém aí dentro?
Crislaine: Não! Está tudo certo. Hoje não vai ter mais nada aqui, não te falei? Quando eles não vão voltar, colocam o aviso no quadro para nós, da faxina…
Marcos: Ah, que bom!

Marcos corre até Crislaine, abraça ela por trás, braços em volta de sua barriga, e beija seu pescoço.

Crislaine: (tentando se soltar) Espera aí um pouco. Vamos fechar a porta!
Marcos: (insistindo em agarrar Crislaine) Não precisa! Não vai entrar ninguém…
Crislaine: (se solta dele) Melhor ir lá para dentro. Não quero perder meu emprego!
Marcos: Espere aí, vamos pegar umas revistas.
Crislaine: Que hora mais esquisita para uma leitura!
Marcos: Não é nada disso, sua tolinha!

Marcos vai até a pilha de revistas e escolhe algumas. Ele pega uma ou duas delas.

Marcos: Lembra daquilo que a gente combinou?
Crislaine: Claro, tenho de fingir que sou “médica de cabeça” que nem as duas que trabalham aqui.
Marcos: É “psicóloga”!
Crislaine: Não sei falar isso sem enrolar a língua. Não posso ser a faxineira?
Marcos: Não! Toma. Lê essas coisas da capa para mim! Faz de conta que sou seu paciente. Fala assim: “você tem transtorno-obsessivo-compulsivo”!
Crislaine: (pega uma revista e tenta ler a capa) Isso não vai dar certo…
Marcos: Fala alguma coisa para mim, vai. Diz que eu tenho um sintoma e que só um tratamento sexual pode me curar!
Crislaine: (folheando a revista, lê a capa) Você tem trans… torno-obses… sivo… compul… sivo.
Marcos: (age como ficasse excitado) Ah! Isso! Fala mais! Vai lendo aí e diz o que eu tenho!
Crislaine: Você tem… ansiedade…?
Marcos: (mais excitado) Ah! Isso continua, não pare!
Crislaine: (continua lendo, ganhando confiança) Você tem distúrbio de aprendizagem!
Marcos: (volta a abraçar Crislaine por trás) Mais! Mais!
Crislaine: Você tem gravidez psicológica!

Marcos solta Crislaine e pega a revista da mão dela, jogando longe.

Marcos: Deixa, esquece isso. Só repete assim: “vem cá se tratar, meu doente mental”.
Crislaine: (obedecendo, mas sensual) Vem cá se tratar, meu doente mental…!
Marcos: É hoje! Finalmente vou me tratar completamente!

Crislaine vai se afastando em direção a porta do consultório, de forma muito sensual. Começa a retirar partes de seu uniforme de faxineira e Marcos vai atrás, desabotoando a camisa. Os dois entram e fecham a porta.

Nota do autor: a cena prossegue com os mesmos efeitos de luz e som da cena “O QUE ELAS REALMENTE FAZEM LÁ DENTRO ENQUANTO ESPERAMOS AQUI FORA”.

A luz é diminuída, enquanto luzes vermelhas piscantes começam a girar pelo palco. Ruídos de chicotes e gemidos são escutados, cada vez mais altos e mais rápidos, até terminarem em gemidos que lembrem orgasmos. Quando isso acontecer, a iluminação e o som voltam ao normal.

Cena 10 – Victor, Professor, Faxineira, Marcos e Dejacir – “Terapia de Grupo”

Victor entra na sala de espera e senta. Crislaine está espiando pela porta entreaberta. Victor pega uma revista para ler. Entra em seguida o Professor. Ambos se cumprimentam discretamente e educadamente. O Professor também procura uma revista para ler. Alguns instantes depois, Marcos e Crislaine saem do consultório.

Marcos: (tentando disfarçar, fala com Crislaine) Muito obrigado, doutora!
Crislaine: (não entendendo muito bem, mas responde) Não foi nada!
Victor: Oi, eu sou o Victor. Vim para o grupo de apoio… me indicaram a Dra. Vália, não sei se o nome está certo.
Professor: Eu também estou aqui para o grupo de apoio… a senhora é a Dra. Vália?
Crislaine: (feliz de ter sido confundida com uma psicóloga) Eu?
Marcos: Isso mesmo! Eu também estou na terapia de grupo. Estava na minha sessão individual…
Victor: Já deve estar na hora, né? Já passam das quatro horas.
Marcos: Bom, então vamos conversar… cada um fala seu nome, o que veio fazer aqui e pronto!
Professor: Aqui na sala de espera?
Marcos: É que lá dentro é mais apertado e o ar condicionado não funciona muito bem… sabe como é. Não é, doutora?
Crislaine: É?
Marcos: Vamos nos sentar e começar. Quem é o primeiro?

Todos sentam e se acomodam, Crislaine é a última. Tenta sentar no colo de Marcos, mas é empurrada para uma outra poltrona ou cadeira.

Victos: Bom, eu… eu posso começar. Meu nome é Victor e estou com problemas com minha faxineira…
Marcos: Ah, que problema sem graça… e você? Qual o seu problema?

Marcos olha na direção do professor.

Professor: Sou professor e… eu estou envolvido, melhor, apaixonado, por uma aluna…
Marcos: E…?
Professor: Só isso.
Marcos: Mas a vida particular dos professores é problema de cada um! É só isso? Acho que pode ser dispensado! Está curado! Tchau!
Professor: Só isso? Achei que devia falar mais.
Marcos: Mas está acontecendo algum problema?
Professor: Não, nenhum…
Crislaine: Você é casado ou tem namorada?
Professor: Saio com algumas amigas, tenho vários encontros, mas não tenho nenhum relacionamento sério com ninguém.
Marcos: Ela é bonita?
Professor: É linda.
Marcos: É… jovem?
Professor: Mais do que eu.
Crislaine: Muito mais?
Professor: Faz diferença?
Victor: (interferindo) Se for o suficiente para causar algum constrangimento…
Professor: (falando para Marcos) E você faz o quê aqui?
Marcos: (pensa um pouco) Psicólogas!
Victor: Apaixonado por uma psicóloga?
Marcos: Muitas!
Professor: Muitas?
Marcos: Quis dizer “muito”.
Crislaine: Bom, acho que eu preciso ir embora…
Victor: Ir embora? E o nosso grupo?
Marcos: Ela teve uns problemas. Nem ia ter a sessão de grupo hoje.
Victor: Mas eu nem falei da minha faxineira!
Marcos: Então fala! É gostosa?
Victor: (meio constrangido com Marcos) Não gosto de falar dela assim desse jeito! Sou muito apaixonado por ela!
Crislaine: (meio ofendida) Mas qual é o problema? Faxineira também é gente! Qual é o problema em ser chamada de gostosa?
Victor: Mas ela é casada… e eu também! Eu morro de paixão por ela… não consigo esquecê-la. Penso nela o tempo todo!
Crislaine: Nossa! Que safado!
Marcos: Não há nada de errado nisso, mas é bom ser discreto.
Victor: Discreto?
Marcos: É… pra sua mulher não descobrir, entende? Conheço um lugar…
Professor: Por isso que eu estou aqui, também! Todos me dizem para ser discreto com minha aluna. Aí eu fico pensando: se é para ser discreto, então devo estar fazendo algo errado!
Marcos: Fala a verdade. Vocês estão tendo um caso, não é?
Professor: Não está acontecendo nada, só não consigo parar de pensar nela.
Crislaine: O que você sente por ela?
Professor: Quando era minha aluna, eu ficava admirando o brilho do olhar dela. Eu poderia ficar ali, olhando, parado por dias e dias naquele olhar.
Crislaine: Xi! Esse deve ser veado!
Marcos: Mas porque não tentou agarrar ela?
Professor: Está maluco? Posso perder o emprego!
Marcos: Perde não… vai ver que ela até queria! Você não sabe como são as mulheres!
Victor: Deixa o cara em paz. Deixa de ser depravado, meu!
Marcos: Fala sério, aqui entre nós, segredo absoluto: tem certeza que não aconteceu nada? Nem passou a mão nela?
Professor: (ficando irritado) Claro que não! Nada! Nem abraço de despedida!
Victor: Isso seria assédio sexual, podia dar cadeia!
Marcos: Ou casamento, que é muito pior!
Crislaine: Bom, a conversa tá boa, mas preciso ir trabalhar!
Victor: Mas não deu nem cinco minutos!
Crislaine: Ah! Dei, sim!
Marcos: (tentando consertar) Ela quis dizer que esta sessão inicial é só cinco minutos. Hoje, estamos aqui apenas para se conhecer! Na semana que vem a gente tem uma sessão completa com a outra Dra. Vália.
Professor: Outra? Que coisa esquisita!
Marcos: Mas também tem uma vantagem! A primeira consulta é grátis!
Crislaine: Grátis? O que foi que a gente combinou, seu cachorro?
Marcos: Aquilo foi outra coisa, Crislaine…
Victor: Seu nome é Crislaine?
Marcos: Não, eu me enganei. Crislaine é… é… é o nome da minha faxineira!
Victor: Que coincidência! Minha faxineira tem uma irmã que trabalha aqui nesse prédio como faxineira… e o nome da irmã dela é Crislaine!
Crislaine: Então é você que quer comer a minha irmã? Seu cachorro!
Victor: (não entende) Como é que é?
Marcos: Não foi nada não. Acho que ela está em um processo de transferência! Está simulando que é a irmã da sua faxineira para tentar… para tentar…
Victor: Para tentar…?
Marcos: Esqueci completamente o que eu ia dizer! Ah, esses termos técnicos! Não tem aí uma revista que explica essas coisas?

Dejacir entra pela porta.

Dejacir: Opa, estou interrompendo alguma coisa? Vim para o grupo de apoio!
Marcos: Dejacir? De novo?
Dejacir: Um pessoal lá embaixo veio perguntar o que eu tinha. Daí, quando contei minha história, indicaram que eu viesse numa reunião que tem aqui. Uns doidos que se apaixonam demais, uma coisa assim.
Professor: Você quis dizer “Pessoas Que Amam Demais”.
Marcos: Ah, é? Mas já acabou. Chegou tarde… que pena!
Dejacir: Acabou? Puxa… engraçado, me disseram que começava as quatro. (olha o relógio, coloca no ouvido e sacode o relógio) Esse relógio continua maluco!
Marcos: Dra. Vália, a senhora estava indo embora, lembra?

Crislaine está distraída. Marcos se aproxima, lhe dá um cutucão e repete a pergunta.

Marcos: Dra. Vália, a senhora estava indo embora, lembra?
Crislaine: Está bem. Cadê o dinheiro?
Marcos: (tira do bolso umas notas) Está aqui.

Victor e Professor vêem Marcos pagando e também tiram dinheiro do bolso e pagam. Marcos olha o relógio preocupado com a hora.

Crislaine: (achando que eles querem sexo) Vocês também vão pagar? Eu não quero esse dinheiro. Só faço isso por amor e com quem eu simpatizo.

Marcos pega o dinheiro e enfia na mão de Crislaine a força.

Marcos: Não precisa fazer nada não, está atrasada!
Crislaine: Está bem, mas não precisa empurrar!
Marcos: (tentando forçar a saída de Crislaine) Tchau Dra. Vália… sua colega já deve estar chegando. Aquela, sabe? Vamos rápido com isso!
Crislaine: Homem é sempre assim! Depois que conseguem o que querem, tratam a gente que nem faxineira…

Crislaine abre a porta do consultório para pegar os apetrechos de limpeza que estavam lá dentro. Chaveia a porta e vai na direção da porta de saída.

Professor: Para que essa vassoura?
Crislaine: Ora, é que…
Marcos: (forçando uma piada) Ela é especialista em doido varrido! Ah! Ah! Ah! Ah!

Eles sorriem por educação.

Marcos: (tentando explicar) A faxineira esqueceu dentro do consultório, ela vai devolver…
Dejacir: (parando a faxineira) Eu não conheço você? Não vi você no corredor antes?
Marcos: Dejacir, você está com problema de memória, não lembra?
Dejacir: Não lembro, não!
Marcos: Viu? Não falei? Não lembra!
Crislaine: Com licença, preciso ir…

Crislaine sai.

Victor: Também já vou. Já que acabou cedo, vou aproveitar e vou para casa. Tchau para vocês! Prazer em conhecê-los!
Marcos: Também tenho de ir. Vou tentar a sessão de outra cooperativa. Essa daqui não tem psicóloga que me dê… a cura.
Dejacir: Parece que com faxineira é mais difícil levar um fora, não é?
Marcos: Engraçado! Parece que eu já tive essa conversa antes! Bom, tchau para vocês! “Dejavi”!
Dejacir: “Dejavi” tudo!

Marcos sai.

Dejacir: (sacode a cabeça negativamente, contrariado) Que cara mais safado! (grita, abrindo a porta de saída) É “dejavu”!

Dejacir sai. O professor arruma suas coisas para sair e, quando se vira para ir embora, Samantha entra.

Cena 11 – Professor e Samantha – “Eu nunca Toquei você”

Samantha: Professor!
Professor: Samantha!
Professor e Samantha: Você está fazendo o quê por aqui?

Os dois riem da coincidência.

Professor: Perguntei primeiro!
Samantha: Estou aqui com o Jarbas, lembra dele? A gente estava falando do senhor!
Professor: Muita coincidência… eu acabei de falar de você…
Samantha: Coincidência mesmo… falou no consultório? Puxa, quanta honra. Pensei que nunca mais ia lembrar de mim!
Professor: Ah, estava falando sobre aulas. Alunas…

Samantha larga a bolsa em algum lugar.

Samantha: Alunas?
Professor: Alunos… nada de especial.
Samantha: (decepcionada) Ah!
Professor: E… você?
Samantha: Eu? Eu vou bem…
Professor: Não, não foi isso… eu quis dizer: sobre o que você estava falando? De mim…?

Jarbas volta com dois copos d’água e interrompe-os sem perceber. Anda até o meio da sala. Os dois olham para ele. Quando ele percebe quem está ali, Jarbas dá meia volta, dirigindo-se para o corredor, “fazendo-de-conta” que não esteve ali.

Professor: Estava dizendo…?
Samantha: Não me lembro!
Professor: Bom… bom ver você…
Samantha: É…

Novamente alguns momentos de silêncio.

Professor: (tentando quebrar o gelo e parecer simpático) Você continua linda!
Samantha: Obrigada…
Professor: Bom, acho melhor eu ir…

O professor vai saindo, mas é interrompido por Samantha.

Samantha: Espere… eu queria dizer uma coisa…
Professor: É?
Samantha: É que eu… sempre… eu nunca…

A porta abre e Crislaine entra na ponta dos pés, como se os dois não estivessem ali. Crislaine pega alguma coisa que estava no chão (uma escova de limpeza, por exemplo) e vai saindo, pé ante pé, imaginando que assim não estaria incomodando.

Samantha: (fala baixinho) Quem é essa doida?
Professor: (sem muita certeza) Minha psicóloga…?

Ambos ficam olhando para a falsa psicóloga.

Professor: Dra. Vália?
Crislaine: Me ignorem, não liguem para mim, eu não estou aqui…

Crislaine sai. Os dois acham estranho. Ficam um tempo em silêncio.

Professor: (ele se aproxima mais de Samantha) Então… você dizia…
Samantha: É que…

O ambiente se silencia novamente.

Professor: Eu também queria te dizer uma coisa…

Jarbas volta, abre a porta e dá batidinhas na porta para alertar que está ali…

Professor: Tudo bem, Jarbas?

Jarbas se aproxima e aperta a mão do professor.

Jarbas: Oi, professor…
Professor: Como estão as coisas?
Jarbas: Bem… acabei de receber o recado da faxineira, lá fora, dizendo que a terapeuta cancelou as consultas de hoje. Vim ver se a Samantha ainda quer uma carona. Está em cima da hora… tenho um outro compromisso.
Professor: (se aproxima de Samantha para um abraço, mas hesita – não tem coragem de se aproximar dela) Bom, não quero prender vocês… também preciso ir! Tchau!
Jarbas: Tchau!
Samantha: Tchau…

Professor sai. Samantha pega sua bolsa.

Jarbas: Então? Falou com ele? Aproveitou? Tentou beijar, agarrar, abraçar? Qualquer coisa?
Samantha: Ah, não aconteceu nada… ele não ia… ah, sei lá. Se quisesse, tinha tentado algo. Deve me achar muito sem graça. Eu acho que nunca toquei o coração dele.

Os dois saem para o corredor, deixando a porta aberta.


© Victor M. Sant’Anna 2007

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