{"id":169,"date":"2015-01-30T07:41:47","date_gmt":"2015-01-30T10:41:47","guid":{"rendered":"http:\/\/textosteatro.com\/br\/?p=169"},"modified":"2015-06-18T11:40:33","modified_gmt":"2015-06-18T14:40:33","slug":"alice-de-jesus-2f","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/textosteatro.com\/br\/alice-de-jesus-2f\/","title":{"rendered":"Alice De Jesus (2f)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pref\u00e1cio<\/strong><\/p>\n<p>Agora, em 2002, percebo como algumas indica\u00e7\u00f5es de luz e interpreta\u00e7\u00e3o estavam fora do prop\u00f3sito, j\u00e1 que coloquei no papel algumas de minhas pr\u00f3prias ideias sobre como eu gostaria que a pe\u00e7a fosse encenada. Tenho sido\u00a0um pouco mais modesto, agora que estou longe do teatro. Portanto,\u00a0descartem todas as indica\u00e7\u00f5es. Elas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de anacronismo.<\/p>\n<p>Algumas ideias continuam v\u00e1lidas. Afinal de contas, textos para &#8220;esquetes&#8221; s\u00e3o sempre um pouco dif\u00edceis de serem encontrados. A ideia de uma pe\u00e7a inteira, por\u00e9m curta, para o p\u00fablico de teatro ainda parece ser algo interessante hoje em dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Victor M. Sant&#8217;Anna, 30 de maio 2002.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Esta pe\u00e7a faz parte da s\u00e9rie de &#8220;Pe\u00e7as Anexas&#8221;, ou seja, \u00e9 um texto dram\u00e1tico para ser encenado junto \u00e0 pe\u00e7a principal. As pe\u00e7as anexas t\u00eam a vantagem de serem curtas, possibilitando experi\u00eancias c\u00eanicas comuns somente\u00a0em laborat\u00f3rios de teatro e pe\u00e7as acad\u00eamicas. Comumente, elas servem de &#8220;aperitivo&#8221; \u00e0 peca principal, permitindo ao espectador n\u00e3o s\u00f3 uma distra\u00e7\u00e3o a mais, como tamb\u00e9m uma maneira de conhecer mais\u00a0o\u00a0trabalho de um mesmo diretor ou grupo, durante o mesmo dia.<\/p>\n<p>Alice de Jesus \u00e9 uma pe\u00e7a simples, um pequeno drama. Este\u00a0texto me surgiu a mente em janeiro de 1990, na tentativa de criar algo de curta dura\u00e7\u00e3o, para ser encenado antes de uma com\u00e9dia.<\/p>\n<p>Alice \u00e9 uma jovem oprimida pela m\u00e3e. N\u00e3o h\u00e1 muito o que se possa fazer ou dizer. O texto \u00e9 simples e de f\u00e1cil entendimento. Todos os s\u00edmbolos utilizados s\u00e3o claros, tornando esta pe\u00e7a \u00f3tima para grupos iniciantes. Experi\u00eancias s\u00e3o bem-vindas, afinal, este \u00e9 o esp\u00edrito presente por tr\u00e1s de cada &#8220;Pe\u00e7a Anexa&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\">Alice De Jesus<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">\u00a0I Parte<\/span><\/p>\n<p><strong>Cena<\/strong><\/p>\n<p>No palco, h\u00e1 um varal (uma corda pendurada de lado a lado do palco) e algumas roupas presas a ele.<\/p>\n<p><strong>Roteiro<\/strong><\/p>\n<p>Uma mulher (de costas para o publico), vestida com roupas\u00a0simples\u00a0(como uma lavadeira, por exemplo), pendura algumas roupas, tirando-as de uma bacia que arrasta com o p\u00e9, no ch\u00e3o, \u00e0 medida que anda. Fica assim at\u00e9 pendurar toda a roupa. Esta cena leva alguns minutos. Ela volta-se para o p\u00fablico e fala como estivesse contando um segredo.<\/p>\n<p><em>M\u00e3e:\u00a0A minha filha se forma hoje&#8230;<\/em><\/p>\n<p>A luz geral diminui enquanto o foco do lado esquerdo aumenta, onde surge Alice. Quando a luz estiver somente na Alice, ela fala e sua m\u00e3e sai. Ela\u00a0veste uma toga ou outra roupa qualquer que remeta a sua formatura naquele dia.<\/p>\n<p><em>Alice:\u00a0Eu sei que \u00e9 ingenuidade minha. Mas eu n\u00e3o podia fazer outra coisa! A \u00fanica maneira de escapar, era fazer o que a minha m\u00e3e me ordenava&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Na verdade ela n\u00e3o dava uma ordem. Era uma m\u00e3e muito legal. Ela apenas quis para mim o que n\u00e3o teve. Ela n\u00e3o mandou realmente. Ela pressionou-me como uma bonequinha. Ela chantageou-me com delicadeza e amor. As m\u00e3es querem o melhor para suas filhas. Ela me pressionou. Ela fez com que eu me formasse, mesmo contra a minha vontade. Ela fez para mim o que era o melhor&#8230; para ela.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando eu era pequena, eu mexia\u00a0na boca das pessoas. Ela dizia: &#8220;Quando crescer, vai ser dentista!&#8221;. Para mim, era s\u00f3 brincadeira de crian\u00e7a. Para uma m\u00e3e, era um press\u00e1gio!<\/em><\/p>\n<p><em>Ela sempre quis que eu tivesse o melhor, mesmo n\u00e3o podendo. Ela sempre quis que eu fosse a melhor. Desde pequena, sempre estudando. Eu sempre quis ser a melhor da aula. Eu sempre fiz para minha m\u00e3e o que era melhor para mim&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Ela quis para mim o que n\u00e3o teve para ela: oportunidade! Uma chance de ser livre! E foi isso que ela construiu em mim: uma pessoa livre! Posso ir onde eu quiser. Se eu quiser, posso largar tudo neste instante e ir embora. Eu sou livre! Minha m\u00e3e me fez livre!<\/em><\/p>\n<p>Aos poucos, o sorriso que a personagem tem no rosto vai desaparecendo. Em seguida, um outro sorriso, carregado de cinismo invade seu rosto, que vai se transfigurando at\u00e9 transbordar\u00a0raiva. A luz diminui e ela sai.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">\u00a0II Parte<\/span><\/p>\n<p><strong>Cena<\/strong><\/p>\n<p>Quando a luz geral aumentar novamente, a m\u00e3e estar\u00e1 sentada numa cadeira de balan\u00e7o, na lateral esquerda do palco, \u00e0 frente do varal.<\/p>\n<p><strong>Roteiro<\/strong><\/p>\n<p>Ela est\u00e1 esperando Alice e est\u00e1 aflita.\u00a0Procura com o olhar alguma coisa, sempre balan\u00e7ando a cadeira. Passa-se algum tempo antes de Alice entrar em cena. \u00c0s vezes, a m\u00e3e levanta e olha por uma janela imagin\u00e1ria, como se pressentisse a chegada de Alice. Volta, tenta dormir, n\u00e3o consegue. Alice entra pela lateral direita. Ela tenta entrar devagar para n\u00e3o acordar a m\u00e3e. Est\u00e1 sem a toga. Alice atravessa o palco na ponta dos p\u00e9s, bem devagar, at\u00e9 postar-se atr\u00e1s da cadeira da m\u00e3e.<\/p>\n<p><em>M\u00e3e:\u00a0Por que demorou, Alice?<\/em><\/p>\n<p>Alice d\u00e1 a volta at\u00e9 a frente da cadeira e beija sua m\u00e3e nas m\u00e3os. Alice senta-se ou ajoelha-se na frente da m\u00e3e, que levanta, vai at\u00e9 a plat\u00e9ia e come\u00e7a a discursar.<\/p>\n<p><em>M\u00e3e:\u00a0Alice! Isso \u00e9 hora de chegar? Foi isso que voc\u00ea disse que ia fazer? Voc\u00ea prometeu que ia chegar cedo, n\u00e3o prometeu? Voc\u00ea n\u00e3o disse que ia voltar antes que eu reparasse? Que eu n\u00e3o ia sentir nada? Voc\u00ea n\u00e3o disse que ia ser r\u00e1pido? Acha cedo? Acha cedo essa hora? Acha que \u00e9 cedo chegar nessa hora?<\/em><\/p>\n<p>Alice est\u00e1 quieta, olhando para a cadeira.<\/p>\n<p><em>M\u00e3e:\u00a0\u00c9 assim que voc\u00ea me trata? \u00c9 assim que voc\u00ea trata sua pr\u00f3pria m\u00e3e? A sua m\u00e3e, que fica aqui lhe esperando? A m\u00e3e que acredita quando a filha diz que vai chegar cedo? Por que, Alice? O que foi que eu fiz a voc\u00ea? O que foi que eu fiz?! Diz! Por que me machucar assim? Por que voc\u00ea me magoa? Eu fiz alguma coisa? Eu fiz alguma coisa errada? \u00c9 assim que voc\u00ea trata a sua m\u00e3e? Por que, Alice? Eu sempre dei tudo a voc\u00ea! Eu n\u00e3o dei? Deixei de dar alguma coisa, filha? Deixei? N\u00e3o cuidei da minha filhinha esses anos todos? N\u00e3o me sacrifiquei para dar tudo o que uma pobre m\u00e3e pode dar? Nao dei para minha filha educa\u00e7\u00e3o? N\u00e3o dei sa\u00fade? N\u00e3o dei o melhor? Responde, filha! O que foi que eu n\u00e3o dei? Por que voc\u00ea faz isso comigo (vai ficando cada vez mais brava)? Responde, Alice! Por que me magoar desse jeito? Quer me matar de desgosto? Afinal, por onde \u00e9 que voc\u00ea andava?<\/em><br \/>\n<em>Alice: (vira para a m\u00e3e e responde) Eu s\u00f3 sa\u00ed um pouco, com um amigo&#8230;<\/em><br \/>\n<em>M\u00e3e: Amigo? Prefere ficar com um amigo do que com a pr\u00f3pria m\u00e3e? A m\u00e3e que sempre deu tudo pra voc\u00ea? A m\u00e3e que sempre fez tudo por voc\u00ea? Alice&#8230; (ternamente) Eu n\u00e3o quero que voc\u00ea fique triste ou infeliz. Eu s\u00f3 quero o que \u00e9 melhor para voc\u00ea. Se voc\u00ea acha que deve ficar com um amigo at\u00e9 mais tarde, ent\u00e3o eu deixo&#8230; eu quero que voc\u00ea pense bastante nisso. Depois, se voc\u00ea achar que eu n\u00e3o mere\u00e7o, n\u00e3o precisa me dar aten\u00e7\u00e3o. Eu posso entender. Eu nasci mesmo para sofrer. (finge ser compreensiva) Por que n\u00e3o voltou mais cedo e trouxe seu amigo aqui em casa? (espera um pouco pela resposta e ent\u00e3o termina) Eu fa\u00e7o tudo por voc\u00ea e \u00e9 assim que voc\u00ea me paga&#8230;<\/em><\/p>\n<p>A luz escurece um pouco. Alice levanta-se e vai at\u00e9 a m\u00e3e, que est\u00e1 parada, de frente para o p\u00fablico. Alice fala para a m\u00e3e, como o desabafo de algu\u00e9m que fala sozinha para um retrato.<\/p>\n<p><em>Alice: M\u00e3e&#8230; eu conheci algu\u00e9m. Ele me disse&#8230; ele disse que gosta de mim! M\u00e3e! Eu queria tanto lhe contar! Ele gosta de mim! (aos poucos, vai deixando de falar para a m\u00e3e e vai falando para a plat\u00e9ia) Ele gosta de mim e eu gosto dele! Ele gosta de mim e eu n\u00e3o consigo dizer para voc\u00ea! Eu n\u00e3o consigo lhe dizer que estou feliz! Eu nunca consigo lhe dizer nada! Eu queria lhe dizer tanta coisa&#8230; eu queria lhe dizer e n\u00e3o consigo! Eu queria lhe mostrar quem eu amo! Eu queria que voc\u00ea conhecesse meus namorados! Eu queria que voc\u00ea fosse minha amiga! Que voc\u00ea me entendesse! Eu tenho tanto medo! Eu tenho tanto medo de lhe machucar, de lhe magoar&#8230;<\/em><\/p>\n<p>A luz vai escurecendo. No canto esquerdo do palco, um foco de luz (mesma posi\u00e7\u00e3o do primeiro foco) aumenta. Alice aproxima-se dessa luz e entra nela enquanto a m\u00e3e sai pelo outro lado.<\/p>\n<p><em>Alice: Quando eu era pequena, minha m\u00e3e dizia &#8220;Alice, quando voc\u00ea crescer, voc\u00ea n\u00e3o vai me deixar sozinha&#8221;. Eu sempre pensava &#8220;Nunca vou deixar minha m\u00e3e sozinha! Nunca. Nunca vou deixar minha m\u00e3e sozinha&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>A luz geral volta a crescer. Na cadeira, sentada, a m\u00e3e fica balan\u00e7ando. Levanta, enquanto a m\u00fasica &#8220;Parab\u00e9ns pra voc\u00ea&#8221; toca. Sai pelo lado direito e volta com uma cadeira de balan\u00e7o. Arrasta a cadeira de balan\u00e7o\u00a0e a posiciona\u00a0simetricamente \u00e0 primeira cadeira, ambas\u00a0de frente para o p\u00fablico; a primeira cadeira est\u00e1 do lado esquerdo e a segunda, do lado direito.<\/p>\n<p><em>M\u00e3e: Vem experimentar seu presente, Alice! (vai at\u00e9 a cadeira esquerda e senta)<\/em><\/p>\n<p>Alice senta na cadeira direita. As duas ficam balan\u00e7ando. Algu\u00e9m vem por tr\u00e1s do varal e afasta as roupas do meio. No lugar, pendura um len\u00e7ol que serve de tela para alguns &#8220;slides&#8221; de bolos de anivers\u00e1rio, projetados (por tr\u00e1s) quando a luz diminui bastante. A m\u00fasica &#8220;Parab\u00e9ns pra voc\u00ea&#8221; toca diversas vezes, repetidamente. A m\u00fasica p\u00e1ra. Quando a luz subir novamente, as duas se levantar\u00e3o e se abra\u00e7ar\u00e3o.<\/p>\n<p>A luz vai diminuindo e um foco central sobre as duas aumenta. A m\u00e3e sai pela esquerda enquanto Alice fala como se ela estivesse ali.<\/p>\n<p><em>Alice: M\u00e3e, eu queria tanto te agradecer. Voc\u00ea sempre me d\u00e1 o que \u00e9 melhor para mim&#8230; Muito obrigado, m\u00e3e!<\/em><br \/>\n<em>M\u00e3e: (somente a voz) Recolhe a roupa para mim!<\/em><\/p>\n<p>Alice recolhe a roupa e coloca na bacia. A luz geral aumenta um pouco. Inclusive, ela recolhe o len\u00e7ol que est\u00e1 pendurado. Alice volta at\u00e9 o centro do palco, debaixo do foco central. A luz geral diminui novamente. A m\u00e3e volta com a toga e come\u00e7a a vestir Alice. Um outro foco sobre a cadeira esquerda come\u00e7a a crescer. A m\u00e3e vai at\u00e9 o fundo do palco, que est\u00e1 escuro. Alice a olha e espera, sem entender. A m\u00e3e volta com a corda do varal\u00a0e amarra a cintura de Alice com a corda. Sai da luz e vai at\u00e9 a cadeira da esquerda. Ela amarra a outra ponta da corda na cadeira e senta-se. Alice examina a corda<\/p>\n<p><em>M\u00e3e: Tchau, Alice. Volta cedo!<\/em><\/p>\n<p>A luz sobre a m\u00e3e (cadeira esquerda) diminui at\u00e9 apagar totalmente. Fica somente o foco central sobre Alice. Ela volta-se para a plat\u00e9ia e, enquanto a luz diminui bem devagar, diz:<\/p>\n<p><em>Alice: Obrigada, m\u00e3e.<\/em><\/p>\n<p>A luz apaga totalmente.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a9 Victor M. Sant&#8217;Anna 2002<br \/>\nDireitos Reservados &#8211; n\u00e3o copie sem autoriza\u00e7\u00e3o!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pref\u00e1cio Agora, em 2002, percebo como algumas indica\u00e7\u00f5es de luz e interpreta\u00e7\u00e3o estavam fora do prop\u00f3sito, j\u00e1 que coloquei no papel algumas de minhas pr\u00f3prias ideias sobre como eu gostaria que a pe\u00e7a fosse encenada. Tenho sido\u00a0um pouco mais modesto, agora que estou longe do teatro. Portanto,\u00a0descartem todas as indica\u00e7\u00f5es. 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