Peça Anexa


Peça Anexa

 

Personagens

Torturado
Torturador 1
Torturador 2
Mulher (mãe)
Moça (filha)
Rapaz (namorado da moça)

 

Cenário

Uma mistura de quarto e sala. Ao fundo, está posicionado um sofá branco. No lado esquerdo do palco encontra-se uma cômoda (toucador) com um espelho. No lado direito do palco pode ser observado um guarda-roupa por onde entram e saem alguns dos personagens. No centro do palco, há uma cadeira com um homem nu (em farrapos) sangrando e com as mãos amarradas à frente.

 

Roteiro

Um rapaz e uma moça estão sentados sobre a cômoda, beijando-se. No sofá, dois homens (torturadores) vestidos de uniforme – ou terno-e-gravata – estão sentados; um à esquerda e outro à direita de uma mulher de vestido escuro, ornamentada com muitas jóias que brilham bastante.

Luz forte no personagem da cadeira (torturado).

Torturado: (fala como um menino arrependido) Não sou um subversivo. Não sou um revoltado. Apenas queria saber a verdade. Ninguém teve culpa. Fui torturado só porque mereci. Eu atrapalhei a ordem das coisas. O mundo progride lentamente. Se eu tentar mudar essa lentidão, vou atrapalhar a ordem das coisas. Tudo. Eu mereço ser punido. Não sou uma vítima. Sou o próprio culpado. Se eu não quisesse ter sido diferente, jamais teria sido torturado. Os torturadores não tiveram culpa. Eram apenas instrumentos. Se eu tivesse falado logo… tudo faz parte de tudo.

Luz forte no primeiro torturador, que se levanta.

Torturador 1: Não sou um torturador. Sempre pensei: “Sou um torturador!”. Mas não sou. Já torturei muita gente. Já matei muita gente. Eu não queria matá-los. Eles sempre demoravam para dizer aquilo que a gente queria ouvir. As culpas eram deles mesmos. Esses subversivos não respeitavam nada. Insistiam em ficar calados. Se tivessem a sensatez de falar logo… eu não sou um torturador. Nem sei por que eu fazia aquilo. Diziam que era necessário. Eu apenas obedecia ordens. Se eu não obedecesse as ordens, o torturado seria eu, entendem?

Luz forte no segundo torturador, que também se levanta.

Torturador 2: Se não existissem subversivos, não haveria torturados. Se todos fossem bons, pessoas más como eu não seriam necessárias. Eles existem como controle da sociedade, para proteger os inocentes. A mulher das jóias é quem queria punir os culpados. Eu não era o torturador. Eu só fazia o que era certo. Também fui uma vítima. Alguém controlado. Um instrumento. Eu nada teria feito se nada tivessem me mandado fazer.

Luz baixa geral. Luz forte no torturado e nos jovens na cômoda.

Torturado: (fala desesperadamente) Socorro!
Rapaz: Acho que ouvi sua mãe lhe chamar.
Moça: (arruma-se no espelho) Vou ver o que é.

Ela anda até a cadeira do torturado. Olha ele, dá uma volta na cadeira dele e vai para o fundo do palco, onde está o sofá. Dirige a palavra a sua mãe.

Moça: Chamou, mãe?
Mulher: Não. (sacode a cabeça negativamente)
Torturado: Socorro! Alguém me ajude!

Os torturadores dirigem-se até o torturado. Luz geral alta.

Torturador 1: Com licença!
Torturador 2: Com licença! (imita o jeito do outro)

Estão posicionados um a cada lado do torturado.

Torturador 1: Coitadinho! (com escárnio)
Torturador 2: Eu já disse que não adianta gritar! (o torturador 2 passa a mão na cabeça do torturado)

A mulher levanta-se do sofá, chega perto do torturado, olha-o com cara de nojo e sai em direção ao guarda-roupa. Os dois torturadores deixam o torturado e correm para acompanhar a dama. Eles mostram-se gentis e submissos a ela. A moça aproxima-se do rapaz na cômoda, olhando para o torturado com pena.

Moça: (fala para o rapaz) Não gosto quando minha mãe conversa com aqueles homens.
Rapaz: Ela conversa com quem quiser. (pega a moça pela cintura e beijam-se)
Moça: (afasta o rapaz com os braços) Ela é minha mãe!

Uma voz atrás das cortinas fala aos jovens

Voz: Tomem cuidado! Aqueles dois homens que acompanham sua mãe são perigosos. São muito perigosos.
Rapaz: Vamos dar uma volta?
Moça: Vamos!
Voz: (continua falando, sem ser ouvida) Eles são maus. Eles são torturadores. Eles matam por nós.

Os jovens beijam-se mais uma vez e saem através do guarda-roupa.

Luz baixa. Foco no torturado.

Torturado: Por favor! Alguém me salve! Eu…

Luz aumenta. Torturadores voltam pelo guarda-roupa e vão até o torturado.

Torturador 1: Cala essa boca, animal! Viu no que deu sua valentia? Você quis lutar contra a sociedade, seu estúpido!
Torturador 2: (pega um pedaço de pau) Ele fez isso?
Torturador 1: Não sei. (vira-se para o torturado) Confesse!
Torturador 2: (bate com o pau na cadeira)
Torturador 1: Queria desorganizar a organização e desestabilizar a estabilidade! Queria desordenar a ordem! Desestruturar as estruturas!
Torturador 2: Confesse! (bate com o pau na cadeira)
Torturado: Eu… Eu não fiz nada!
Torturador 2: (pára um pouco de bater) Cansei. Por que você não confessa logo? (vira-se para o outro) Quer bater um pouco?
Torturador 1: (Faz uma cara de espanto e nojo) Eu!? Eu não! Eu nunca faço mal a ninguém!
Torturador 2: Não sabe como é bom! (bate o pau no torturado com muita força e o torturado desmaia)
Torturador 1: Vamos embora. Você bateu demais. Depois a gente volta.
Torturador 2 :(está decepcionado) Ô, bosta!

Os dois torturadores saem por onde entraram. Entra uma moça com um cachorrinho, que vai até o torturado.

Moça do cachorrinho: Coitado! Deve estar precisando de ajuda. (sacode e acorda o torturado)
Torturado: Por favor! Me salve! (mostra as mãos atadas)
Moça do cachorrinho: (recuando) Eu vou chamar a polícia!
Torturado: Não! Espere! A polícia não!

A moça do cachorrinho sai correndo enquanto entram os torturadores e a mulher das jóias. Os torturadores sentam no sofá. A mulher pega o pau e ameaça bater no torturado. A seguir, ela pára e começa a discursar.

Mulher: Você é uma praga! Vem aqui e ameaça nossas vidas. Ameaça nossa felicidade. Com que direito? Você é apenas uma minoria! Nada! Uma simples minoria de nada! Vejam esses pobres homens! Veja o trabalho que tiveram com você! Você! Você!

Os homens levantam-se e abrem a porta do guarda-roupa. A mulher sai por ela. Os homens a seguem.

Mulher: (abre o guarda-roupa novamente, coloca a cabeça para fora e grita) Sua puta!


© Victor M. Sant’Anna 2002
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