Nunca Tinham Sido Tão Felizes


– Precisamos de um carro – ela pensava consigo mesma já fazia anos.
O marido, secretamente, pensava o mesmo. Mas era impossível. Vivendo em casa alugada num puxadinho no terreno da mãe, junto com mais um monte de irmãos, cada um na sua casinha, nem teriam onde guardar um carro. E era impossível. Mesmo que um dia, milagrosamente, tivessem o dinheiro, teriam de usar para coisas mais urgentes dentro da casa. Goteiras, telhado, reboco, pintura, encanamento vazando, piso quebrado, colchões velhos e armários com cupim. Ela fazia faxinas e ele vivia de bicos, sem carteira assinada, sem décimo terceiro, sem chances. Muito impossível.
A filha mais nova já estava virando mocinha e a mais velha já havia adentrado na adolescência. A mãe se preocupava com as filhas voltando tarde no inverno, escuridão, frio, tarados. Uma menina de 13 anos havia desaparecido voltando das aulas ali perto recentemente. A filha mais velha queria poder sair com as amigas. A mais nova já queria começar a se atrever a pensar o mesmo.
– Muito perigoso, só se nós tivéssemos como te pegar na volta!
– Mas, mãe…
– Não dá, filha! Não tem como!
Mas teve. Um dia, os milagres acontecem. Coincidência das triplas: (1) ela ganhou de surpresa um presente de um patrão, um adiantamento de férias. (2) Ele, repentinamente e fora de época, arranjou um serviço de pintura de um apartamento e, (3) um vizinho com problemas financeiros imediatos ofereceu um velho carro com pagamento parcelado, metade do valor à vista e o resto para ser pago em mais duas ou três vezes. Fizeram as contas muitas vezes. Ia ficar apertado, mas era uma pechincha.  Tinha de dar. E deu. Não era grande coisa, era só um carro velho com problemas para dar a partida e outros milhões de problemas que os carros velhos e maltratados e baratos tinham: pintura descascando, pontos de ferrugem, limpador de pára-brisa torto e vários pontos amassados, recauchutados e cobertos de massa. Era um carro que tinha história e personalidade. Mas até melhor que tivessem de empurrar o carro de vez em quando para conseguirem dar a partida: assim seria difícil ser roubado, já que não tinham muito dinheiro nem pra gasolina, muito menos para o seguro. O importante é que o motor funcionava e o carro andava – embora nem sempre.
As meninas nunca tinham imaginado que um dia teriam um carro. Quando o pai chegou com o carro, sábado à tardinha, ficaram admirando o veículo. Depois resolveram se apropriar do que já era deles: limparam tudo, deram um banho, tapetes, estofado, porta-mala. Mangueira e baldes, esponjas e o que conseguiram de produtos para limpeza.
– Finalmente estou fazendo uma faxina em algo que é meu! – pensou ela.
Passaram a noite sonhando com o carro. E, de vez em quando, um deles acordando e indo até a frente da casa para vigiar o mesmo.
Vamos passear no parque. Domingo. Comemorar o carro novo.
A família todo se preparou para o piquenique. Comida, toalhas, refrigerantes. Bolsas e sacolas pra acomodar tudo no carro velho novo.
Calcularam se o que tinham de gasolina no tanque era suficiente e partiram. Atravessaram a cidade para ir ao melhor parque da região. Um sonho antigo se realizando. Estacionaram em um lugar seguro e passam um dia maravilhoso juntos, como nunca haviam tido. Nunca tinham sido tão felizes.
– A vida é maravilhosa! – Pensou ela.
Mas o tempo passou, começou a entardecer, sol se pondo, começa e refrescar o tempo. Será que chove? Amanhã tem trabalho, as gurias têm aula. Vamos recolher tudo e voltar para casa.
Caminharam vários minutos até onde haviam estacionado seu único bem. Onde estava o carro?
Um frio na barriga. Procuram pelo veículo desejando que estivessem enganados sobre o local onde o tinham estacionado.
– Estava aqui!
– Roubaram?
Eles ficaram ali olhando onde o carro deveria estar. No lugar dele, uma vontade de chorar.

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